Era janeiro de 2005. O dia eu não lembro, porque aí é exigir demais da minha memória. O mês eu gravei não sei porque, mas alguma razão de ter.
Eu estava me arrumando no mesmo quarto que era meu desde os 12 anos de idade. Era segunda-feira e eu ia me encontrar com ele num desses bares de sinuca. Eu nunca saía na segunda-feira, mas ele me convenceu que ia ser rápido, então aceitei. Ainda não sei como eu concordei ir a esse encontro, mas alguma razão deve ter.
Na verdade eu ainda não tinha certeza se ele estava me convidando com terceiras intenções. Como sempre foi muito sério e respeitoso, jamais deixou espaço para eu pensar que tivesse algum interesse em mim. Acho que eu aceitei mesmo foi para ter certeza do que ele queria, pois era a segunda vez que me convidava para sair nos últimos dias. Dois convites em quatro dias. Alguma razão deve ter.
De fato, era o pior momento possível para sair com alguém. Eu estava com a minha vida amorosa virada pelo avesso. Problemas atrás de problemas, um mar de lamúrias. Estava sofrendo e fazendo outros sofrerem, e envolver mais uma pessoa era uma atitude insensata. Mas lá fui eu rumo à sinuca, que nunca foi minha praia. Alguma razão deve ter.
Chegando lá, estacionei o carro o meu antigo e indefectível carro, um Uninho 1.0 cor vinho. Eles estava na porta do bar e saiu para me receber. Assim que desci do carro ele me abraçou e disse "Oi gatona". Opa, sinal de possível interesse amoroso número 01: eles jamais usou esses termos comigo. O máximo que consegui dele foi um elogio a minha barriga após uma aula de abdominal, que ficou restrito a "você está ficando dividida".
Minha cabeça já estava a mil, pensando que era uma maluquice eu estar ali.
"Vá arrumar a sua vida, sua louca!! Já bastam os problemas que você já tem".
No fundo, aproveitei aquele convite para sair e me distrair um pouco. Respirar e esquecer dos problemas. Queria conversar, beber, relaxar.
Jogamos uma partidinha por insistência dele, que me ajudou a encaçapar duas bolas. Foi divertido, ele era uma companhia agradável. Apesar da formalidade que era nosso relacionamento até ali, consegui agir naturalmente na medida do possível.
Depois que eu mostrei que me ensinar sinuca era perda de tempo, fomos para a parte de cima do bar e pedimos uma cervejinha.
Sentamos um de frente para o outro. Distância confortável e prudente. Conversa vai, vem, rimos muito, papo legal.
Eu estava pressentindo que estava chegando o momento da conversa constrangedora: por que mesmo estamos ali?
Alguma razão deveria ter.
Ele me perguntou do ex-namorado, e eu, com toda a franqueza que me faz falar sempre um pouco demais, contei tudo o que estava acontecendo. Mas ele pareceu não se importar.
- Você percebeu que quando te convidei para sair, eu tinha um interesse em você?
- Na verdade isso passou pela minha cabeça, mas eu não tinha certeza..
- É, por isso estou perguntando, desconfiei que você não tinha percebido...
Pronto, sinal de possível interesse amoroso confirmado. Ele queria algo comigo... Risinhos tímidos e daí surge aquele silêncio foda, aquele que todos odiamos, aquele que ninguém sabe o que dizer e nem para onde olhar, e mesmo que dure apenas segundos, parece demorar séculos para alguém quebrar esse momento.
Foi aí que a situação ficou ainda mais constrangedora. Ele saiu da confortável cadeira de frente para mim e se sentou ao meu lado, bem perto.
Digamos, BEM perto. Ele estava me olhando... soltou que já me via com outros olhos há algum tempo, mas que eu namorava e tal...
Fiz cara de surpresa, mas por dentro eu realmente estava surpresa. Ou eu tenho muito sex appeal ou Murphy colou em mim, porque estava chovendo homem na minha horta só porque eu estava no caos dos relacionamentos.
Veio a pergunta bandida:
- Posso te dar um beijo?
Digam-me se existe uma boa resposta para essa pergunta! Na verdade isso não se pergunta, se faz, agarra-se a mulher no estilo homem das cavernas e a beija com paixão. Mas como ele não tinha certeza se eu tinha o mesmo interesse que ele, achou melhor pedir permissão. Eu, é lógicoo, permiti. Ia fazer doce depois de aceitar um convite para sair só nos dois em plena segunda-feira??
Ficamos lá mais uma ou duas horinhas, bebendo, rindo e dando uns beijinhos. Minha vida estava muito confusa e foi bom me divertir um pouco. Desliguei o resto do mundo e vivi aquelas horinhas numa realidade paralela.
Fomos embora, eu no meu carro, ele no dele, cada um para suas respectivas casas. Já com elevado teor alcóolico na veia, segui pela contra-mão, feliz da vida. Ele foi atrás de mim, para ter certeza que a menina bêbada que não sabia nem pegar a rua certa ia chegar bem em casa.
Ele já cuidava de mim. Alguma razão devia ter...
Muitos meses passaram-se até que a gente saísse de novo. Dessa vez, eu já estava livre de problemas e não precisar fugir da realidade. Eu queria apenas viver a realidade, viver muito. Nesse segundo encontro ele não perguntou nada. Apenas me beijou... e me beija até hoje.
Agora consigo claramente entender a razão de tudo.
O destino é sábio.
quarta-feira, 19 de novembro de 2008
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2 comentários:
Esse cara da história é meio frouxo... se fosse eu, tinha dado logo um beijão!! :P
Te amo pra sempre!
Bom recordar nossa vida... muita coisa legal...
kkkk eu vivi isso a tudinho junto.. è bom demais quando vc vê sua amiga no fundo escuro do poço, em seus olhos brancos uma tristeza fria e dolorosa.. E ai aparece um cavalheiro num chevette azul e a resgata... e ela volta a sorrir volta a amar e VOLTA A SER FELIZ!!!
A HISTÓRIA DE VC´S É LINDA... E ISSO NÃO PODERIA ME DEIXAR MAIS FELIZ!!!!
AMOOOOO VC´S MUITÃO MESMO! TENHO UM ORGULHO DANADO DESSA HISTÓRIA DE AMOR MODERNO!!
BJO ;)
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